O morcegário.

O morcegário.

Existe desde 2003, na Península de Tróia, um morcegário, abrigo artifical para morcegos. Durante a planificação das profundas alterações que estão a ser feitas em Tróia detectou-se uma colónia de morcegos-rabudo Tadarida teniotis numa das torres que viriam a ser demolidas. Estes morcegos, protegidos em Portugal e ameaçados de extinção, emitem ecolocações audíveis ao ouvido humano e os habitantes da torre conheciam a sua existência pelo ‘chinfrim’ nocturno que faziam. Os morcegos-rabudo abrigavam-se por baixo de dobras de betão que existiam nas varandas da torre, aninhando-se entre a dobra de betão e a parede da varanda.

Já se conhecia a possibilidade de o morcego-rabudo poder se abrigar em edifícios, como complemento aos seus abrigos usuais em fendas rochosas. Trata-se de uma espécies que caça em alto vôo, num território muito alargado em redor do seu abrigo. Concentra a sua actividade ao longo de vales, em detrimento de zonas de relevo acidentado. No entanto, é no Parque Natural do Alvão, uma zona acidentada, que está referenciada a mais numerosa e importante colónia nacional deste mamífero. O morcego-rabudo tinha sido no passado referenciado para a Ilha da Madeira, estando depositado no Museu de História Natural de Londres um espécimen capturado em 1878. No entanto, um estudo de 2008 sobre as populações de morcegos da Madeira, feito por José Jesus e Sérgio Teixeira, não detectou esta espécie, indiciando a sua possível irradicação naquela ilha e mostrando a sua vulnerabilidade. A publicação Quercus Ambiente revela um pouco mais sobre os morcegos da Madeira, os únicos mamíferos terrestres autóctones da ilha, aqui.

A vista para Noroeste do topo do morcegário, com a Serra da Arrábida no horizonte.

A vista para Noroeste do topo do morcegário, com a Serra da Arrábida no horizonte.

O sapal da caldeira de Tróia a Sudeste.

O sapal da caldeira de Tróia a Sudeste.

A estrutura do interior do morcegário.

A estrutura do interior do morcegário.

Antes da demolição da torre que abrigava os morcegos-rabudo em Tróia, e em colaboração com o ICNB – Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade e com o Instituto do Mar, foi projectado e edificado um abrigo alternativo para os morcegos, tendo-se feito após a sua conclusão, e antes da implosão, a transferência de alguns indivíduos que haviam sido capturados e anilhados, tendo-se certificado que mais nenhum estava no edifício. O morcegário utilizou algumas das placas de betão que antes serviam de abrigo na torre, numa tentativa de modificar o menos possível os hábitos dos morcegos. Note-se, no entanto, que a altura do morcegário é muito inferior à altura da torre, algo que poderá ter influência na escolha de abrigo visto, como referido, este morcego caçar a grandes alturas.

As tentativas de conservação de quirópteros passam, em geral, pela identificação e protecção dos seus abrigos, recursos que limitam as populações e locais onde estão mais expostos e vulneráveis. É o caso, por exemplo, do abrigo de morcegos do Sítio “Sicó-Alvaiázere”, integrado no projecto Micro-Reservas da Quercus, e que protege mais de 4000 morcegos de nove espécies diferentes. A criação de abrigos artificiais para morcegos é uma nova medida.

Camila henriques e Catarina Santos efectuam a procura e contagem de morcegos aninhados na dobra de betão da antiga torre.

Camila Henriques e Catarina Santos efectuam a contagem de morcegos aninhados na dobra de betão da antiga torre.

Para determinar a eficácia desta medida de conservação o morcegário tem sido visitado com regularidade para fazer contagem dos morcegos das diferentes espécies que se encontram a usar este abrigo artificial. O morcego-rabudo, morcego alvo desta medida, tem sido detectado no morcegário, apesar de ser ainda cedo para determinar o sucesso ou insucesso da medida. Uma das possibilidades é os morcegos encontrarem abrigos alternativos, visto, por exemplo, a Serra da Arrábida, onde abundam grutas, se encontrar a uma curta distância de vôo.

No passado dia 28 de Setembro, acompanhei Camila Henriques e Catarina Santos, duas das biólogas da equipa que faz a monitorização dos morcegos no morcegário, numa das suas visitas. Nesse dia e hora, a contagem foi curta, tendo sido detectado um exemplar de morcego-anão Pipistrellus pipistrellus, morcego relativamente comum entre nós e de pequenas dimensões – tão pequeno que se descobriu recentemente que é caçado por chapim-real Parus major na Hungria – e um exemplar de morcego-hortelão Epseticus serotinus, espécie mais comum que o morcego-rabudo e de hábitos diferentes.

Morcego-hortelão aninhado numa das dobras de betão.

Morcego-hortelão aninhado numa das dobras de betão.

O morcego-hortelão, maior que o morcego-anão e de orelhas salientes, é conhecido por se abrigar em  edifícios e em pontes e fendas de rochas, podendo alguns machos isolados ser encontrados em fendas dentro de grutas e minas. É um morcego mais adaptado a meios humanizados e com capacidade para utilizar uma maior variedade de habitats para a sua alimentação, desde áreas urbanas a zonas ribeirinhas e terrenos agrícolas ou florestados. Não admira, por isso, que, sendo menos especializado, seja mais abundante que o mais ameaçado morcego-rabudo.

Fica o registo fotográfico do morcegário e sua área envolvente e a esperança que esta medida de conservação da natureza se prove eficaz em fornecer abrigo a populações de morcegos.

O mesmo morcego-hortelão, aninhado na dobra de betão.

O mesmo morcego-hortelão, aninhado na dobra de betão.

Concetrado de mosquitos, mais conhecido por dejectos de morcego.

Concentrado de mosquitos, mais conhecido por dejectos de morcego.