esquilo

Foto de esquilo por Toivo Toivanen e Tiina Toppila.

A extirpação de uma população de um ser vivo significa que numa determinada zona já não subsiste nenhum exemplar no estado selvagem da espécie em causa. É um facto geograficamente delimitado. Assim, a extirpação em Portugal no século XVI do esquilo Sciurus vulgaris não impediu que no final do século XX se tenha assistido a uma recolonização do nosso teritório continental por esquilos vindos de Espanha e reintroduzidos no Parque Florestal de Monsanto.

É importante salientar que a extirpação de um ser vivo de uma área contribui para fragilizar o seu estatuto global de conservação e aumentar a probabilidade de se vir a extinguir, pois resulta na diminuição do número global de indivíduos e leva à perda de diversidade biológica da espécie. Mas não significa que o ser vivo esteja extinto.

A extinção de um ser vivo significa que não existem mais exemplares vivos em todo o planeta, no mundo selvagem ou em parques botânicos ou zoológicos. Quando se usa a palavra extinto ou extinção de forma isolada está-se a referir a extinção global, em todo o planeta. É final e irreversível.

Cada vez mais no presente assistimos à aceleração de extirpação de populações e extinção de espécies. As notícias sobre estas questões multiplicam-se. Por isso acho que seria importante concordar-se nas condições para o uso destes termos, para tornar a linguagem o mais clara possível.

Evitar a confusão nem sempre é fácil. Com demasiada frequência, a extirpação de uma população local acaba por ser mais um passo na imparável marcha para a extinção. E a extirpação da última população existente de um ser vivo resulta na sua extinção, contribuindo para o esbater da diferença entre os dois termos. Disto resulta que, muitas vezes, ao falar-se de extirpação de uma população a mesma é referida como extinção. Há, também, quem defenda o uso do termo extinção local como equivalente de extirpação. O problema é que esta nuance é perdida em pessoas sem conhecimentos técnicos específicos e acaba-se por referir o facto como extinção, sem acrescentar o epíteto geográfico.

Será importante esta confusão de termos? Não estamos afinal a tentar conseguir travar o enorme empobrecimento da diversidade biológica que será o grande legado civilizacional do século XXI?

Na minha opinião esta confusão é importante e deve ser evitada. Clarifique-se o mais possível o uso destes termos. Por isso, proponho que ao escrever-se sobre conservação da natureza ou história natural se faça bem a distinção entre extirpação, local e reversível, e extinção, global e irreversível.

Disso depende uma correcta prioritização de projectos de conservação e uma correcta informação do público. Como exemplo de um uso correcto destes conceitos refiro o Plano Nacional da Conservação da Flora em Perigo, do ICNB-Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade, onde se fizeram planos de conservação de sete espécies de plantas endémicas de Portugal e ameaçadas de extinção e de uma espécie, o famoso trevo-de-quatro-folhas Marsilea quadrifolia, ameaçado de extirpação em Portugal, mas presente em outros países da Europa. A perda das populações das espécies endémicas resultaria na extinção no mundo selvagem das espécies endémicas, enquanto a perda da população do trevo-de-quatro-folhas em Portugal resultaria na extirpação destas populações e não na extinção da espécie.

trevoquatrofolhas

O feto aquático trevo-de-quatro-folhas, ameaçado de extirpação em Portugal.