Conferência de Copenhaga: O Mundo Todo nas Nossas Mãos. Foto de uma açofeifa - fruto da açoifeifeira Ziziphus zizyphus - na palma da minha mão.

Começa hoje a Cimeira de Copenhaga sobre Alterações Climáticas. A sua organização é, por si só, uma enorme vitória da razão e da ciência sobre a ignorância e a destruição. Não será uma cimeira que resolverá tudo o que há para resolver em relação aos problemas do aquecimento global e das suas presentes e futuras consequências. Mas determinará o tom da discussão e da acção a partir deste momento.

É, também, uma chamada pessoal a todos para que tomemos posições e deixemos um turpor vivencial que nos tem dominado nos últimos anos. Sabemos o que se passa mas sentimo-nos ultrapassados, desmoralizados, acabamos por nos refugiar na negação da realidade. Pessoalmente, já fiz mais no passado para contribuir para mudar o actual e insustentável estado das coisas do que faço hoje. Fui, por exemplo, sócio de várias organizações não governamentais de defesa do ambiente (ONGA), nacionais e internacionais, e participei em campanhas e acções de informação.

Pouco a pouco, o cinismo foi-se apoderando de mim. Ao ver uma ou duas pessoas sem escrúpulos ou ideais usarem as suas posições nas ONGA para benefício próprio, apesar de rodeadas por uma maioria honesta e trabalhadora mas cuja credulidade nas boas intenções de quem trabalhava apenas para si me deixava exasperado, iniciei o meu afastamento. Fui, também, sentindo os resultados da hostilidade dos meios de comunicação social e de muitos dos decisores e comentadores da década de 90. É difícil manter uma actividade na qual empenhamos muita energia e recursos sem qualquer benefício material pessoal quando à nossa volta não só não há reconhecimento mas ainda há muita reprovação. Gostaria de dizer que sou incólume ao que outros pensam de mim, mas a verdade é que o reforço social positivo é muito importante quando se quer manter uma actividade exigente e pouco recompensadora.

Quem queria o status quo de usar bens naturais comuns para proveito próprio conseguiu construir uma imagem pública falsa que as ONGA eram fundamentalistas, que não era possível dialogar com essas organizações, que queriam viver na pré-história, que eram as ONGA que andavam de alguma forma a tirar proveito das suas lutas. Foi uma fórmula neutralizadora que teve sucesso. E, infelizmente, essa mesma imagem foi e tem sido perpetuada por outros lutadores pela causa ambiental que deviam ter um pouco mais de juízo e menos de ego pessoal.

Esta imagem publica das ONGA não podia ser mais errada. As ONGA estavam – e estão – recheadas de pessoas que oferecem o seu tempo e, muitas vezes, meios para lutarem por príncipios em que acreditam e estas pessoas – uma ONGA é o conjunto das pessoas que a compõem, não é uma entidade abstracta – têm sido indispensáveis em desacelerar a destruição ambiental do nosso país. Claro que em todo o lado há pessoas movidas mais pelo interesse pessoal. Mas o balanço das ONGA é extraordinariamente positivo. Se pensarmos que as maiores ONGA nacionais têm apenas um ou dois milhares de sócios a pagar quotas, o trabalho pelo interesse público e comum que desenvolvem é absolutamente singular. Mas – incrivelmente, quando actos deveriam falar por si – a luta por uma imagem pública positiva foi perdida.

No meu caso, deixei a minha negatividade fechar-me os olhos a estes factos durante demasiado tempo. Cansado, segui a minha luta individual e afastei-me da luta colectiva. Foi um erro. Deixei que os interesses de alguns me vencessem pelo cansaço pessoal. Deixei de participar, deixei de pagar quotas.

Mas o dia-a-dia mostra bem que se não nos envolvermos na vida civil, individualmente ou em organizações, se não estivermos preparados para darmos um passo em frente, sermos vistos e contados, sujeitos a sermos, por vezes, atacados, mas sem deixarmos de lutar por algo em que acreditamos, se as Pessoas de Bem deste país continuarem a refugiar-se em casa assustadas com a quantidade de lodo que nos rodeia, o resultado será uma deteriorização contínua da qualidade da nossa democracia e vida.

Cansa, e é  por vezes desesperante – é difícil re-energizar com pequenas vitórias quando as derrotas são enormes e quase avassaladoras – mas o luxo de nos refugiarmos no nosso canto já não é comportável. Felizmente, enquanto eu o fiz, muita gente – muitos dos que tinha considerado excessivamente crédulos e por quem agora tenho muita admiração pela capacidade de resistência e resiliência – não o fez. Têm-se perdido muitas batalhas pela razão e bom senso, a favor do cacequismo e da destruição sem fundamento. Mas cabe-nos a todos nós aderirmos a organizações e darmos o nosso pequeno mas essencial contributo para melhorar o estado das coisas, seja a vida interna de uma organização, seja contribuindo com a quota ou donativo para tornar possível vir a conseguir regular forças económicas muito mais poderosas, capazes de financiar campanhas intermináveis de desinformação. A vida em democracia não é fácil. Requer labor e suor. Tanto que eu queria não ter que aceitar isto e poder continuar no meu mundo …

A Cimeira de Copenhaga é um marco global, uma chamada de atenção planetária. Para mim é também um marco pessoal, uma chamada a que eu não consigo mais não responder.

É caso para dizer que temos o Mundo todo nas nossas mãos. Urge agir. Não nos podemos mais fechar, um a um, nas nossas casas. Por mais confortável que, por agora, nos seja.