História Natural


Inaugurou no dia 24 de Junho de 2010, na Galeria Pedro Serrenho, uma exposição de pintura intitulada Caderno de Campo, da autoria de Vanda Vilela. No blog da autora podem ser vistas todas as obras em exposição.

Os quadros, quase todos em grandes formatos, com tamanhos superiores a 100 x100 cm, são inspirados em temas de história natural. A exposição é deslumbrante e de uma enorme riqueza cromática e de formas inspiradas nos seres que nos rodeiam. Os quadros de Vanda Vilela dão uma nova visão sobre aves, insectos, mamíferos, plantas, uma cornucópia de seres vivos que ganham vida na sua obra e que são re-interpretados.

Enquanto biólogo aderi de imediato à abordagem da pintora. A paixão pelos temas que dominam a minha vida profissional é celebrada com mestria e originalidade nos seus quadros. As cores são vibrantes, ricas.  O detalhe quase fotográfico. É o tipo de arte que adoraria ver todos dias, em casa ou no trabalho.

E durante um mês, até 24 de Julho de 2010 pode ser vista na Rua Almeida e Sousa 21A, Campo de Ourique,  Terça a Sábado das 11h às 13 e das 14h às 20h. Para mais informações, consultar a página da Galeria. Uma exposição a não perder.

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Foto de António Branco de Almeida.

Foi no passado dia 22 de Maio de 2010 que inaugurou esta loja, um projecto e sonho meu de longa data. Espero conseguir que resulte e que se mantenha muitos anos!

Conto com a vossa visita!

Instalações da futura Loja de História Natural.

Espero que sim! Estou a criar um espaço em Lisboa onde a Fauna, a Flora e a Geografia sejam idioma comum, para facilitar o conhecimento, o usufruto, a partilha e a descoberta do mundo natural. Ficará em frente ao Museu Nacional de História Natural, no topo da Rua Monte Olivete, junto à Rua da Escola Politécnica.

À semelhança do que aconteceu com o projecto da minha Casa na Arruda-dos-Vinhos, vou acompanhar online o desenvolvimento desta aventura.

Mas o que é uma Loja de História Natural? Tenho 90 dias para definir e construir este espaço e a vossa opinião e contributo serão muito bem vindos!

A partir de 1 de Março de 2010, data prevista de abertura, convido-vos a visitar a loja. Vou ficar muito feliz de vos ver!

P.S. – Entretanto 1 de Março de 2010 veio e foi e a loja ainda não abriu! Mas não desesperem (?!), estou a trabalhar afincadamente no assunto. Vão espreitando, mas não se preocupem que eu vou fazer alarido quando a loja abrir!
esquilo

Foto de esquilo por Toivo Toivanen e Tiina Toppila.

A extirpação de uma população de um ser vivo significa que numa determinada zona já não subsiste nenhum exemplar no estado selvagem da espécie em causa. É um facto geograficamente delimitado. Assim, a extirpação em Portugal no século XVI do esquilo Sciurus vulgaris não impediu que no final do século XX se tenha assistido a uma recolonização do nosso teritório continental por esquilos vindos de Espanha e reintroduzidos no Parque Florestal de Monsanto.

É importante salientar que a extirpação de um ser vivo de uma área contribui para fragilizar o seu estatuto global de conservação e aumentar a probabilidade de se vir a extinguir, pois resulta na diminuição do número global de indivíduos e leva à perda de diversidade biológica da espécie. Mas não significa que o ser vivo esteja extinto.

A extinção de um ser vivo significa que não existem mais exemplares vivos em todo o planeta, no mundo selvagem ou em parques botânicos ou zoológicos. Quando se usa a palavra extinto ou extinção de forma isolada está-se a referir a extinção global, em todo o planeta. É final e irreversível.

Cada vez mais no presente assistimos à aceleração de extirpação de populações e extinção de espécies. As notícias sobre estas questões multiplicam-se. Por isso acho que seria importante concordar-se nas condições para o uso destes termos, para tornar a linguagem o mais clara possível.

Evitar a confusão nem sempre é fácil. Com demasiada frequência, a extirpação de uma população local acaba por ser mais um passo na imparável marcha para a extinção. E a extirpação da última população existente de um ser vivo resulta na sua extinção, contribuindo para o esbater da diferença entre os dois termos. Disto resulta que, muitas vezes, ao falar-se de extirpação de uma população a mesma é referida como extinção. Há, também, quem defenda o uso do termo extinção local como equivalente de extirpação. O problema é que esta nuance é perdida em pessoas sem conhecimentos técnicos específicos e acaba-se por referir o facto como extinção, sem acrescentar o epíteto geográfico.

Será importante esta confusão de termos? Não estamos afinal a tentar conseguir travar o enorme empobrecimento da diversidade biológica que será o grande legado civilizacional do século XXI?

Na minha opinião esta confusão é importante e deve ser evitada. Clarifique-se o mais possível o uso destes termos. Por isso, proponho que ao escrever-se sobre conservação da natureza ou história natural se faça bem a distinção entre extirpação, local e reversível, e extinção, global e irreversível.

Disso depende uma correcta prioritização de projectos de conservação e uma correcta informação do público. Como exemplo de um uso correcto destes conceitos refiro o Plano Nacional da Conservação da Flora em Perigo, do ICNB-Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade, onde se fizeram planos de conservação de sete espécies de plantas endémicas de Portugal e ameaçadas de extinção e de uma espécie, o famoso trevo-de-quatro-folhas Marsilea quadrifolia, ameaçado de extirpação em Portugal, mas presente em outros países da Europa. A perda das populações das espécies endémicas resultaria na extinção no mundo selvagem das espécies endémicas, enquanto a perda da população do trevo-de-quatro-folhas em Portugal resultaria na extirpação destas populações e não na extinção da espécie.

trevoquatrofolhas

O feto aquático trevo-de-quatro-folhas, ameaçado de extirpação em Portugal.

goraz

Andava eu de olho nas plantas do jardim, a preparar a visita guiada de amanhã, quando por entre a vegetação espreita uma linda garça, um goraz Nycticorax nycticorax. Os olhos vermelhos, a plumagem azul, sobressairam da beira do lago. Parece que nidificam no jardim Zoológico de Lisboa, não muito longe, e estão mais activas no crepúsculo. Saquei da máquina fotográfica minúscula e tirei algumas fotos com o zoom no máximo, sem tripé – e o que se consegue fazer com uma pequena máquina fotográfica hoje em dia! Foi um brinde. Amanhã haverão mais!

O morcegário.

O morcegário.

Existe desde 2003, na Península de Tróia, um morcegário, abrigo artifical para morcegos. Durante a planificação das profundas alterações que estão a ser feitas em Tróia detectou-se uma colónia de morcegos-rabudo Tadarida teniotis numa das torres que viriam a ser demolidas. Estes morcegos, protegidos em Portugal e ameaçados de extinção, emitem ecolocações audíveis ao ouvido humano e os habitantes da torre conheciam a sua existência pelo ‘chinfrim’ nocturno que faziam. Os morcegos-rabudo abrigavam-se por baixo de dobras de betão que existiam nas varandas da torre, aninhando-se entre a dobra de betão e a parede da varanda.

Já se conhecia a possibilidade de o morcego-rabudo poder se abrigar em edifícios, como complemento aos seus abrigos usuais em fendas rochosas. Trata-se de uma espécies que caça em alto vôo, num território muito alargado em redor do seu abrigo. Concentra a sua actividade ao longo de vales, em detrimento de zonas de relevo acidentado. No entanto, é no Parque Natural do Alvão, uma zona acidentada, que está referenciada a mais numerosa e importante colónia nacional deste mamífero. O morcego-rabudo tinha sido no passado referenciado para a Ilha da Madeira, estando depositado no Museu de História Natural de Londres um espécimen capturado em 1878. No entanto, um estudo de 2008 sobre as populações de morcegos da Madeira, feito por José Jesus e Sérgio Teixeira, não detectou esta espécie, indiciando a sua possível irradicação naquela ilha e mostrando a sua vulnerabilidade. A publicação Quercus Ambiente revela um pouco mais sobre os morcegos da Madeira, os únicos mamíferos terrestres autóctones da ilha, aqui.

A vista para Noroeste do topo do morcegário, com a Serra da Arrábida no horizonte.

A vista para Noroeste do topo do morcegário, com a Serra da Arrábida no horizonte.

O sapal da caldeira de Tróia a Sudeste.

O sapal da caldeira de Tróia a Sudeste.

A estrutura do interior do morcegário.

A estrutura do interior do morcegário.

Antes da demolição da torre que abrigava os morcegos-rabudo em Tróia, e em colaboração com o ICNB – Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade e com o Instituto do Mar, foi projectado e edificado um abrigo alternativo para os morcegos, tendo-se feito após a sua conclusão, e antes da implosão, a transferência de alguns indivíduos que haviam sido capturados e anilhados, tendo-se certificado que mais nenhum estava no edifício. O morcegário utilizou algumas das placas de betão que antes serviam de abrigo na torre, numa tentativa de modificar o menos possível os hábitos dos morcegos. Note-se, no entanto, que a altura do morcegário é muito inferior à altura da torre, algo que poderá ter influência na escolha de abrigo visto, como referido, este morcego caçar a grandes alturas.

As tentativas de conservação de quirópteros passam, em geral, pela identificação e protecção dos seus abrigos, recursos que limitam as populações e locais onde estão mais expostos e vulneráveis. É o caso, por exemplo, do abrigo de morcegos do Sítio “Sicó-Alvaiázere”, integrado no projecto Micro-Reservas da Quercus, e que protege mais de 4000 morcegos de nove espécies diferentes. A criação de abrigos artificiais para morcegos é uma nova medida.

Camila henriques e Catarina Santos efectuam a procura e contagem de morcegos aninhados na dobra de betão da antiga torre.

Camila Henriques e Catarina Santos efectuam a contagem de morcegos aninhados na dobra de betão da antiga torre.

Para determinar a eficácia desta medida de conservação o morcegário tem sido visitado com regularidade para fazer contagem dos morcegos das diferentes espécies que se encontram a usar este abrigo artificial. O morcego-rabudo, morcego alvo desta medida, tem sido detectado no morcegário, apesar de ser ainda cedo para determinar o sucesso ou insucesso da medida. Uma das possibilidades é os morcegos encontrarem abrigos alternativos, visto, por exemplo, a Serra da Arrábida, onde abundam grutas, se encontrar a uma curta distância de vôo.

No passado dia 28 de Setembro, acompanhei Camila Henriques e Catarina Santos, duas das biólogas da equipa que faz a monitorização dos morcegos no morcegário, numa das suas visitas. Nesse dia e hora, a contagem foi curta, tendo sido detectado um exemplar de morcego-anão Pipistrellus pipistrellus, morcego relativamente comum entre nós e de pequenas dimensões – tão pequeno que se descobriu recentemente que é caçado por chapim-real Parus major na Hungria – e um exemplar de morcego-hortelão Epseticus serotinus, espécie mais comum que o morcego-rabudo e de hábitos diferentes.

Morcego-hortelão aninhado numa das dobras de betão.

Morcego-hortelão aninhado numa das dobras de betão.

O morcego-hortelão, maior que o morcego-anão e de orelhas salientes, é conhecido por se abrigar em  edifícios e em pontes e fendas de rochas, podendo alguns machos isolados ser encontrados em fendas dentro de grutas e minas. É um morcego mais adaptado a meios humanizados e com capacidade para utilizar uma maior variedade de habitats para a sua alimentação, desde áreas urbanas a zonas ribeirinhas e terrenos agrícolas ou florestados. Não admira, por isso, que, sendo menos especializado, seja mais abundante que o mais ameaçado morcego-rabudo.

Fica o registo fotográfico do morcegário e sua área envolvente e a esperança que esta medida de conservação da natureza se prove eficaz em fornecer abrigo a populações de morcegos.

O mesmo morcego-hortelão, aninhado na dobra de betão.

O mesmo morcego-hortelão, aninhado na dobra de betão.

Concetrado de mosquitos, mais conhecido por dejectos de morcego.

Concentrado de mosquitos, mais conhecido por dejectos de morcego.

A 3 de Setembro de 2009 celebrou-se o centésimo quinquagésimo aniversário da descoberta para a ciência ocidental de uma planta verdadeiramente única, a Welwitschia mirabilis. Foi descoberta pelo explorador e botânico austriaco Frederich A. Welwitsch a 3 de Setembro de 1859 no deserto Angolano de Moçamedes, hoje denominado deserto do Namíbe. A planta viria a ser classificada oficialmente por J. D. Hooker alguns anos mais tarde que a nomeou em honra do seu descobridor.

Desenho feito por Hook.

Desenho feito por J. D. Hooker.

A sua classificação obrigou à criação de um género e família novos para acomodar as diferenças desta planta, algo raro em botânica. Possuidora de características mistas entre plantas sem flor e plantas com flor, foi apelidada de ‘ornitorrinco‘ da botânica. Descrito no final do século XVIII, este mamífero australiano que no entanto põe ovos, tem bico de ‘pato’, cauda de castor, patas de lontra e é venenoso tinha deixado a comunidade científica boquiaberta. E o mesmo acontecia de novo com a Welwitschia mirabilis.

Presente em zonas desertas da Namíbia e Angola, esta planta possue apenas duas folhas que crescem continuamente a partir da base, podendo as folhas rasgarem ao longo do seu comprimento e aparentar serem várias. Pode viver mais de mil anos, sempre com as mesmas duas folhas. Obtém água a partir dos nevoeiros e possuí cotilédones que persitem mais de um ano. É dióica – plantas macho e fêmea separadas – e apesar de, como as coníferas, não produzir flores o pólen assemelha-se ao de plantas com flor. É considerada um fóssil vivo e poderá ter conseguido persistir devido à antiguidade do deserto do Namibe da costa Sudoeste de África, área árida desde há pelo menos 55 milhões de anos.

Exemplar com mais de mil anos. © Thomas Schoch GDLP

Exemplar com mais de mil anos. © Thomas Schoch GFDL CC-BY-SA-3.0

A descoberta desta planta está fortemente ligada a Portugal. Não só foi identificada em território sobre jurisdição portuguesa, em Angola, como o primeiro exemplar recolhido, e que serviria de base para a futura descrição científica, ficou depositado no Herbário do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa. Os exemplares que dão origem à primeira descrição de uma espécie biológica são denominados de exemplares-tipo ou espécimes-tipo e são de extrema importância para a biologia, pois servem de referência para questões relacionadas com aquela espécie. A hoje em dia muito desprezada ciência da Sistemática – classificação (taxonomia) e nomeação (nomenclatura) de seres vivos – é um dos pilares essenciais da ciência moderna, daí a importância – muito esquecida! – dos espécimes-tipo.

Para celebrar os 150 anos da descoberta desta fascinante planta, os Correios de Portugal estão a fazer a emissão de um selo comemorativo, disponível ao público em breve.

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